• Renato Martins

OLHAR SOBRE O GAECO: RITMO, TIME E EFETIVIDADE EM NÚMEROS.

Atualizado: 16 de Mar de 2019



Com o desenrolar do que parece ser o maior escândalo de corrupção sistêmica da história da Paraíba, muitos cidadãos de diversos segmentos profissionais, acadêmicos e de atuações diversas na sociedade, opinam sobre esse ou aquele aspecto da investigação, essa ou aquela oportunidade que se perdeu ou se despotencializou, um acerto ou uma omissão, enfim, julgam ao seu modo e as cegas, claro, pois sempre se pode ter em conta que algo pode estar em segredo de investigação. No entanto, mesmo assim, de forma legítima, a forma de atuação de um órgão público pago pelo contribuinte, caro por sinal, e que nos deve satisfação naturalmente, pode ser analisado por todos os súditos. Ainda mais ante o importante papel que o mesmo tem para com a democracia e o próprio funcionamento republicano, como uma espécie de ombudsman geral da ordem social. Guardião último de toda a sociedade, inclusive contra a própria sociedade. Sem mais delongas, avante numa cronologia de fatos com os avanços, possíveis pontas soltas ignoradas, e alguns ritmos descompassados com um time ainda não tão bem entendidos:


14 de dezembro: A operação Calvário pelo GAECO-RJ, enquadra toda uma cúpula, supostamente liderada por Daniel Gomes, que comandam a OS IPECEP e a CVB-RS, por desvios no RJ, PB e GO. Ambas as entidades, administraram de forma temerária 1,1 bilhão de reais em 8 anos no nosso estado. De acordo com o GAECO-RJ.


OBSERVAÇÕES NESSE PONTO: aqui há de se supor que eles já tinha repassado o vídeo de Leandro Nunes ao GAECO-PB. Há de se supor também que o GAECO tinha a informação que um tio de Daniel Gomes tinha doado 300 mil R$ em 2010 (hoje seria como 600 mil R$) sem conhecer a Paraíba ou mesmo RC, logo, muito se tinha para correr, como vem ocorrendo hoje a olhos vistos. Ressalto que desde sempre, outros órgãos também apontavam erros como o MPT, DENASUS, e auditores do TCE.


16 de janeiro: de acordo com o televisivo Fantástico, Leandro Nunes, ainda assessor da SEAD, é procurado por reportagem nacional e se recusa a atender o famoso repórter 'Sombra' da rede Globo. Penso que aqui acendeu a luz amarela de vez para os membros da ORCRIM do núcleo governamental do esquema, que até então não deveriam saber que tinham sido pegos em flagrante.


18 de janeiro: João Azevedo exonera Leandro Nunes. Fato que só seria revelado em 28 de janeiro em comentário alegando que o mesmo foi exonerado a pedido por ter sido citado. À época ninguém tinha convicção disso. Após esse explicativo sucinto, a imprensa mostrou tiras de fotos com Leandro levando caixas de vinho, ainda com informações desencontradas. Muitas hipóteses, mas, sem linha firme para interpretar o episódio da parte do grande público; claro que não para o GAECO.


31 de janeiro: A rede globo solta propaganda alegando que no Fantástico de domingo próximo (03/02), haveria grande matéria sobre os escândalos de corrupção envolvendo os atores da Operação Calvário e a relação nefasta, incestuosa, entre agentes públicos, dirigentes de OS e fornecedores. Publicidade feita com muita ênfase para a cena da propina entregue no hotel em caxa de vinho para Leandro Nunes. Reparem, até então não se tinha nada totalmente esclarecido em termos de sistematicidade das coisas, embora pelo tempo, se esperasse que o GAECO pudesse ter mais consistência das circuntâncias e assim maior agilidade prévia.


1 de fevereiro: só após essa farta publicização na Globo e redes sociais, o GAECO-PB surge como protagonista, pela tarde de uma sexta-feira realiza a operação Calvário II. Neste horário atípico, e sem o fator surpresa ao seu favor, haja vista o agendamento do tema pelo Fantástico, faz busca e apreensão em Livânia e Waldson, ambos secretários de estado, e prende Leandro Nunes preventivamente. Talvez o grande e decisivo acerto do GAECO-PB até o momento tenha sido essa prisão.


8 de fevereiro: Vazam para o público áudios que seriam de 2012, de acordo com Gilberto Carneiro, e que o MPPB confirmam que seriam de seu conhecimento e domínio do fato pela instituição. A conversa se dá entre empresário do ramo de saúde, Gilberto Carneiro e Waldson Sousa, possivelmente articulando formas seguras para se elaborar um edital licitatório dirigido e um futuro contrato gerador de prejuízos ao estado. Tudo com os diversos "truques" para se garantir o ataque aos cofres públicos. aqui nada se teve de resposta seja ante do vazamento, durante ou depois, num silêncio e inação injustificável, talvez o maior erro e ponta solta encontrada no MPPB.


20 de fevereiro: dia onde o público soube que Leandro falou por mais de 5 horas. No que depois seria confirmado pelo desembargador em seu despacho de soltura. A condução no trato com Leandro até sua condição de colaborador nas investigações, fato que faria o próprio ministério público pedir o seu relaxamento de prisão temporária, hoje tem elementos probatórios, que nos autorizam a afirmar que foi outro grande acerto do GAECO, a condução das tratativas com Leandro de forma a extrair o máximo de informação relevante possível. Indiscutivelmente um acerto de corajosos com resultados ainda imensuráveis para a defesa do patrimônio público.


01 de março: Liberação de Leandro Nunes da cadeia, mudando seu regime para medidas restritivas, como reconhecimento de sua qualitativa e significativa delação. Fato que só viria a público em 3 de março. Agora vem mais um grande equivoco ao meu ponto de vista: pois muitos indícios haviam sobre o que ele poderia ter delatado, e isso servia de alerta para muitas das pessoas que com ele transacionavam, e com ele solto, passaram a ter domínio mais claro da possibilidade de delação premiada e cerco policial.


14 de março: Deflagrada Operação Calvário III; que cumpriu 11 mandatos de busca domiciliar em propriedades de Livânia e vários parentes, com destaque para o ex manda-chuva financeiro do Trauma, o diretor Keydson Samuel, tido como muito ligado a Daniel Gomes, do qual pode se desvelar outra linha investigativa.


ÚLTIMAS OBSERVAÇÕES: não tenho interesse de pormenorizar todos os procedimentos públicos da Calvário. Aqui, neste artigo, interessa somente ter um sobrevoo do ritmo das ações do GAECO-PB, e justamente aqui neste último ato, a Calvário III, tem pontos que reputo falhos ou limitadores, pois tem-se relatos de vizinhos das casas que foram averiguadas feitos a TV CABO BRANCO que nos últimos dez dias houve ampla movimentação de retiradas de malotes e caixas nas residências no Costa e Silva. Vejam bem, se o GAECO, no dia 20 de janeiro, tinha domínio de todas essas inter-relações, soltar Leandro antes de tudo isso, e mais, publicizar a condição de colaborador dele e demorar dez dias para essas novas diligências em alvos que tinham contato constante com ele, foi de algo que eu, como leigo, não consigo entender. Simplesmente isso! E tenho direito de questionar...


No mais, é aguardar os acontecimentos, tudo leva a crer que a justiça será feita. Noticias falam que até advogado de RC já foi identificado pelo delator, bem como locais e formas como as propinas eram distribuídas, não apenas as da Cruz Vermelha-RS. Atentem que Leandro indicou uma assessora fantasma da procuradoria do estado, Maria Laura, como receptora de propinas de outros fornecedores orientados por Livânia, que por sua vez recebia mensalidade de 80 mil para atuar na gerência do risco operacional de tudo isso, e assim, pode ter estruturado com mimos seus parentes. Ou seja, pela nova receptora anunciada nesta fase, sabemos de certo que a Calvário agora tem filhotes... E causa sim, interrogações, não se ter autoridades ainda presas. O núcleo político revelado para além dos benefícios descobertos para a campanha de João Azevedo: existem deputados? Os vereadores? Se sim, os punam. Para engrossarem a lista das delações premiadas, rito normal para elucidar este tipo de crime. Daí a função social desta lei tão generosa com bandidos.


No bairro do Costa e Silva, residência que teve intenso movimento de retirada de caixas e malotes nos últimos dias, teve encontrados estes resquícios de ligas bancárias que podem ser rastreadas e indicar o caminho da propina desta célula.


Cobrar zelo e atenção aos detalhes de todo órgão público no cumprimento de suas missões, é fundamental para o engradecimento de nosso país. A cidadania é conquista e exercício de todos nós.




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